segunda-feira, 1 de julho de 2013

Os livros que os alunos apresenatram nas aulas de Biblioteca de Turma ao longo do terceiro período

O Bruno apresentou o  livro Harry Potter e a Pedra Filosofal de J. K. Rowling.


A Raissa apresentou o livro  Os Livros Que Devoraram o Meu Pai de Afonso Cruz.



A Matilde apresentou o livro Um Cão como Nós de Manuel Alegre.


A Inês apresentou o livro Dentes de Rato de Agustina Bessa- Luís.





Mais livros lidos e apresentados nas aulas de Biblioteca de Turma ao longo do 3º período


A Sofiya apresentou o livro A História de um gato e de um rato que se tornaram amigos de Luís Sepúlveda.

 
A Samanta e a Ema apresentaram O Cavaleiro da Dinamarca de Sophia de Mello Breyner.

 

Os livros que os alunos leram e apresentaram nas aulas de Biblioteca de Turma ao longo do 3º período


A Ana Rita apresentou o livro de António Mota  Cortei as Tranças.



A Gabrièle apresentou o livro Guardei as Lágrimas no Bolso de Ana Meireles.

 
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Resumo coletivo do conto “Mestre Finezas” de Manuel da Fonseca


          Carlinhos, o narrador personagem, recorda o tempo em que era criança e a mãe o obrigava a ir cortar o cabelo à barbearia do Mestre Ilídio Finezas, que tanto o amedrontava com a sua figura alta e esguia e com os seus braços longos e arqueados que lhe faziam lembrar uma aranha.

             Mas, para além do medo que sentia pelo mestre barbeiro, Carlinhos, no tempo da sua infância, sentia por ele uma enorme admiração. Esta resultava da sua brilhante condição do ator amador e da arte com que tocava violino. A sensibilidade artística de Mestre Finezas encontrava eco na personalidade de Carlinhos, enquanto criança em desenvolvimento.

            Anos depois, Carlinhos regressa à vila, após o fracasso de um curso não concluído. De vez em quando ia até à barbearia de Mestre Ilídio Finezas, tornando-se o seu único confidente. O tempo passara, Mestre Finezas envelhecera e enquanto cortava o cabelo ou fazia a barba ao Carlinhos, homem adulto, evocava os seus momentos de fama e entristecia-se com o esquecimento e abandono a que fora votado por todos, pela própria família e pela vila que o trocara pela evolução e pelo progresso das modernas barbearias.

             Entre os dois desponta uma enorme cumplicidade, uma vez que ambos se sentem falhados na concretização dos seus sonhos, Carlinhos falhara um curso e levava uma vida de ociosidade e de marasmo que não o preenchia. Mestre finezas, por sua vez, não concretizara o seu grande sonho de partir mundo fora e ser reconhecido como um grande ator de teatro.

            Para além da frustração dos sonhos não realizados, unia-os o mesmo amor pela arte. É por isso que Carlinhos se disponibilizava sempre para ouvir Mestre Ilídio Finezas tocar uma música lenta e melancólica no seu violino, na qual transmitia toda a sua dor e desolação.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Mestre Finezas de Manuel da Fonseca




 
   Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:

- Só a barba.

Ora é de há  pouco este meu à-vontade diante de Mestre Ilídio Finezas.

Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente à parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.

Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.Como o tempo corria devagar!
 
 
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer-me, não podia bocejar sequer. - «Está quieto, menino» - repetia mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: - «Assim, quieto!» - Os pedacitos de cabelo espalhado pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.

                E eu – sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía – era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de Mestre Ilídio Finezas.

Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáticos da vila.

                Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com

cuidado. Calçava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés.

Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa frente e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação.

                Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconteciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no último acto, com Mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.

                Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.

                Eu arrepiava-me todo. Uma noite mestre Finezas morreu logo no primeiro ato. Foi um desapontamento. Todos criticaram pelo corredor, no intervalo: - «O melhor artista morrer mal entra em cena…! Não está certo! Agora vamos gramar quatro actos só com canastrões!» - dizia o doutor delegado a meu pai

                Mas a cena tinha sido tão viva e a sua morte tão notada durante o resto do espectáculo que, no outro dia, me surpreendi ao vê-lo caminhando em direção à loja.

 
                Ora havia também um outro motivo para a minha admiração. Era o violino.
Mestre Finezas, quando não tinha fregueses, o que era frequente durante a maior parte do dia, tocava violino. E muita vez aconteceu eu abandonar os companheiros e os jogos e quedar-me, suspenso, a ouvi-lo, de longe.

                Era bem bonito. Uma melodia suave saía da loja e enchia a vila de tristeza.

Passaram anos. Um dia parti para os estudos. Voltei homem. Mestre Finezas é ainda a mesma figura alta e seca. Somente tem os cabelos todos brancos.

                Olha bem para mim, - pede-me às vezes – olha bem e diz lá se este é o mesmo homem que tu conheceste?

Finjo-me admirado de uma tal pergunta. Procuro convencê-lo de que sim, de que ainda é. Compreende as minhas mentiras e abana docemente a cabeça:

                - Estou um velho, Carlinhos…

Vou lá de vez em quando. A loja está sempre deserta. As mãos muito trémulas de mestre Finezas mal seguram agora a navalha. E também abriram, na vila, outras barbearias cheias de espelhos e vidrinhos, e letreiros sobre as portas a substituírem aquela bola com um penacho que mestre Finezas ainda hoje tem à entrada da loja.

                Mestre Finezas passa necessidades. Vive abandonado da família, com a mulher entrevada, num casebre próximo do castelo. Eu sou o seu único confidente e um dos raros fregueses.

                Algo de comum nos aproximou. Ilídio Finezas sonhou ser um grande artista, ir para a capital, e quem sabe se pelo mundo fora. Eu falhei um curso e arrasto, por aqui, uma vida de marasmo e ociosidade. Há entre mim e esta gente da vila uma indiferença que não consigo vencer. O meu desejo é partir breve. Mas não vejo como. E, quando o presente é feio e o futuro incerto, o passado vem-nos sempre à ideia como o tempo em que fomos felizes. Daí e ser o confidente de Mestre Finezas.




Leia aqui o conto na íntegra.

 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Biblioteca de Turma

A Raissa apresentou o livro O Diário de Uma Totó II e considerou  a luta que devemos travar pela concretização dos nossos sonhos como a  mensagem mais relevante da obra.


A Matilde apresentou o livro de Alice Vieira Eu Bem Vi Nascer o Sol e falou-nos da sua relação afetiva com esta coletânea de poemas. Era o livro que a sua avó, desde muito cedo, lhe lia e, por isso, conhece muito bem os poemas que o constituem. Tão bem que sabe alguns de cor e presenteou-nos a todos com a declamação do poema " O Homem que não queria comer as couves"  e "A Chave da Cidade de Roma".
 
A Catarina Norinho apresentou o livro Diário de Uma Totó III, um livro que conquista jovens leitoras em todo o lado.
 
 
 
 

Biblioteca de Turma

A Mariana apresentou  bem o livro O Misterioso Rolo de Carne de David Lewman e identificou o tema principal: a importância da interajuda entre as pessoas.
 

A Catarina Vieira apresentou também o livro de Graça Gonçalves Gosto de Ti, R.


O Ricardo apresentou  o livro Sobrei da História dos Meus Pais de Graça Gonçalves e destacou o tema da obra e a mensagem principal que esta pretende transmitir aos jovens.


A história começa com uma rapariga chamada Mariana, que recebe um bilhete de amor, de um admirador secreto. Mais tarde, num dia quente, junto ao riacho, enquanto nada com amigos, desmaia e é internada no hospital. Durante a sua estadia, tenta descobrir quem lhe enviou o bilhete e revê, mentalmente, qual de seus amigos tem o nome começado por A. No entanto, a sua maior preocupação era a situação lá em casa, onde ela já não se sentia bem e da qual o seu pai saiu , sem lhe dar qualquer atenção, nem fazer consigo a habitual brincadeira de criança. Estes maus pensamentos são afastados pela visita do seu amigo João, que lhe falou do André, também ele colega de escola e, então aí, ela supõe que o bilhete era dele. Os dias no hospital prosseguem iguais, até ao dia em que ouve falar do concurso literário via rádio e decide participar. A história é escrita e lida pelo amigo João, que depois a envia ao programa de rádio. Dias mais tarde, recebe a visita do locutor a felicitá-la. Apesar de não ter ganho o primeiro prémio, estava feliz. Sentia-se só e tinha saudades dos pais. Não tinha ninguém, nem para onde ir. Até que, sem poder mais, desabafou e escreveu sem parar, durante mais de um mês. Finalmente o dia de saída chegou e, com ele, o pai e a mãe e, também,  o João, que acabou por revelar ser o A, de Amigo.

Pessoalmente adorei o texto e recomendo-o. Penso que os temas deste conto se relacionam com a amizade e o amor paternal.


 
A Gabriela apresentou o livro do momento Crescendo de Becca Fitzpatrick  e identificou a mensagem principal.
 
 


 

Biblioteca de Turma

Os livros que alguns alunos leram e apresentaram numa aula de Biblioteca de Turma, em que  as impressões de leitura foram  a nota dominante.

A Samanta apresentou de forma brilhante o livro Gosto de Ti, R de Graça Gonçalves.
 
 
Destacou os temas predominantes na obra que, na sua opinião, são o amor, a amizade e a família e falou-nos da mensagem da obra. Para além do realce que é dado à amizade e ao amor, na sua perspetiva, a ideia mais importante que o livro pretende transmitir é que o verdadeiro pai não é o  biológico, mas aquele que educa e acompanha diariamente os filhos.

 O Rúben fez uma apresentação oral do livro O Céu Dentro de Ti de Graça Gonçalves, acompanhada de suporte digital. Fê-la com muito empenho e segurança.

 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Propostas de leitura sobre o tema dos avós




Para saber mais sobres este livro, leia aqui.

Exposição oral sobre o tema -É possível e desejável o convívio entre pessoas de gerações diferentes, em particular entre avós e netos?



A leitura do conto de Teolinda Gersão Avó e neto contra vento e areia abriu caminho para  a reflexão sobre um tema  bem presente na sociedade atual, em que muitos dos mais velhos são  considerados  um  verdadeiro incómodo pelos mais mais novos, de tal maneira que inviabiliza o diálogo e o convívio intergeracional.
Inspirados no percurso das personagens da história, unidos por fortes laços de amizade, e também nas  vivências pessoais dos jovens alunos, quisemos saber a  sua opinião sobre este assunto.
 
O resultado foi surpreendente.
A maioria  não só manifestou sentir um forte apego emocional pelo  avós, como também  deu conta do prazer que esse afeto lhes proporcionava.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Leitura do conto "Avó e neto contra vento e areia" de Teolinda Gersão


Tema: Leitura do conto "Avó e neto contra vento e areia" do livro "A mulher que prendeu a chuva" de Teolinda Gersão

Ouça aqui o texto lido por Isabel da Nóbrega.

Textos escolhidos, textos lidos.
Isabel da Nóbrega dá-nos a conhecer textos fundamentais da melhor literatura Portuguesa.
É o Prazer de Ler; de segunda a sexta na RDP Internacional.
A leitura e apreciação da melhor literatura portuguesa

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Resumo coletivo do conto "Avó e neto contra vento e areia" de Teolinda Gersão


A avó e o neto de cinco anos vão à praia numa bonita manhã de sol e sentem-se felizes na companhia um do outro. Ambos tiram partido daquela manhã tão boa, tomando um belo banho de mar. A confiança que a mãe do neto depositava nela, enchia-a de orgulho. Agradava-lhe sentir-se útil, para além de que, sempre que saía com ele, tinha a sensação de entrar para dentro de fotografias tiradas nos mesmos lugares, muitos anos antes. Eram instantes absolutos, semelhantes àqueles que as fotografias lembravam, os bons momentos do passado. O bem-estar que sentia quando estava com o neto, dava-lhe a sensação de entender o mundo. Entretida nos seus pensamentos, não se apercebeu que perdera os seus óculos em cima do rochedo. Procuram-nos em conjunto, mas não foram bem-sucedidos. Apesar desta perda, a manhã estava a ser perfeita até ao momento em que se levantou um vento intenso que os incomodava.
A avó decide regressar a casa mas, de repente, perdeu-se e não sabia onde estava. A falta dos óculos tirou-lhe o sentido de orientação. Entretanto, o neto espetou um pico no pé, e perante as queixas dele, a avó acaba por levá-lo ao colo, apesar das dificuldades que sentia. Não se deu por vencida, mas começou a recear estar perdida no meio das dunas. A recordação do passado, em que perdera uma criança fê-la recear que essa mesma  situação se repetisse. Sente-se perdida e desamparada, tal como no passado. Subitamente o neto avistou o cão do senhor Lourenço,e tudo se modificou. Estavam a salvo do vento e da areia e o mundo deles voltava a ser perfeito

Vergílio Ferreira fala sobre Teolinda Gersão



Sobre a escritora Teolinda Gersão, Vergílio Ferreira disse um dia: «É uma cúmplice, nesta loucura de encher a vida a escrever romances. Como se numa multidão indiferente alguém erguesse a voz para me saudar. Como se num deserto alguém esperasse para lhe passar o testemunho. Como se de repente eu fosse menos louco».
Para saber mais sobre a escritora Teolinda Gersão, leia aqui.

Avó e neto contra vento e areia de Teolinda Gersão


Tinham ido à praia, porque estava uma manhã bonita. A avó vestia uma saia clara e levava o neto pela mão. Ia muito contente, e o seu coração cantava.

            O neto levava um balde, porque se propunha apanhar conchas e búzios, como já fizera de outras vezes em que tinha ido à praia com a avó.

Ir à praia com a avó era uma das melhores coisas que lhe podiam acontecer nos dias livres. Por isso, também ele ia contente, e o balde dançava-lhe na mão.

A praia estava como devia estar, com sol e ondas baixas. Quase não havia vento, e a água do mar não estava fria. Por isso o neto teve muito tempo de procurar conchas e búzios e de tomar banho no mar. A avó sentou-se num rochedo, e ficou a olhar o neto, por detrás dos óculos. Nunca se cansava de olhá-lo, porque o achava perfeito. Se pudesse mudar alguma coisa nele, não mudaria nada.

Olhava para ele, também, para que não se perdesse. A mãe do neto confiava nela. Deixava-o à sua guarda, em manhãs assim. A avó sentia-se orgulhosa: ainda era suficientemente forte para ter alguém por quem olhar. Ainda era uma avó útil, antes que viesse o tempo que mais temia, em que poderia tornar-se um encargo para os outros. Mas na verdade essa ideia não a preocupava muito, porque tencionava morrer antes disso.

Estava uma manhã tão boa que também a avó tirou a blusa e a saia e ficou em fato-de-banho. Depois tirou os óculos, que deixou em cima de um rochedo, e entrou no mar, atrás do neto, que nadava à sua frente, muito melhor e mais depressa do que ela.

 - Não te afastes, dizia a avó, um pouco ofegante. Volta para trás!

A avó fazia gestos com as mãos, para que voltasse, o neto ria-se, mergulhava e nadava para a frente, e depois regressava, ao encontro dela.

A avó não sabia mergulhar, mas deixava o neto mergulhar sozinho. Ele só tinha cinco anos, mas nadava como um peixe.

No entanto, nunca ia demasiado longe, nem mergulhava demasiado fundo, para não assustar a avó. Sabia que ela era um bocado assustadiça, e ele gostava de protegê-la contra os medos.

A avó tinha medo de muitas coisas: dos paus que podiam furar os olhos, das agulhas e alfinetes que se podiam engolir se se metessem na boca, das janelas abertas, de onde se podia cair, do mar onde as pessoas se podiam afogar. A avó via todos esses perigos e avisava. Ele ouvia, mas não ligava muito. Só o suficiente.

Não tinha medo de nada, mas, apesar disso, gostava de sentir o olhar da avó. De vez em quando voltava a cabeça, para ver se ela lá estava sentada, a olhar para ele. Depois esquecia-se dela e voltava a ser o rei do mundo.

Por isso se sentiam tão bem um com o outro.

Quando saía com o neto, a avó tinha a sensação de entrar para dentro de fotografias, tiradas nos mesmos lugares, muitos anos antes. Era uma sensação de deslumbramento e de absoluta segurança, porque as coisas boas já vividas ninguém as podia mudar: eram instantes absolutos, que durariam para sempre.
Outras vezes a avó pensava que a vida era como uma lição já tão sabida, tão aprendida de cor e salteada, que ela se sentia verdadeiramente mestra. Mestra em quê? Ora, em tudo e em nada: nascimento, morte, amor, filhos, netos, tudo, enfim. A avó tinha a sensação de entender o mundo.

Reino Maravilhoso - Miguel Torga - por Carlos Batista

Reino Maravilhoso

No Reino Maravilhoso de Trás - os - Montes

Miguel Torga - Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança. Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora.



De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada: - Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena: - Entre! A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso. A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua. Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição. Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas.



Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista. Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo. A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde: - Entre quem é!


Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva. Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada. Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez.


Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura. Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.


As ilustrações antropomorfizadas são da pintora Graça Morais, concebidas para o seu livro-objeto No Reino Maravilhoso que junta dois vultos maiores da cultura portuguesa do século XX. Dois transmontanos de corpo e alma. O escritor Miguel Torga (natural de São Martinho da Anta) e a pintora Graça Morais (natural do Vieiro). O texto de Torga (que começa em jeito de fábula: “Vou falar-lhes de um Reino Maravilhoso”) foi proferido em 1941 num congresso sobre Trás-os-Montes; as pinturas de Graça Morais (49 no total) fazem parte das séries Terra Quente, AS Deusas da Montanha e Metamorfose. É um mundo fantástico, dos animais, da lavoura, das árvores, das gentes. Do granito, das serras, das montanhas. De um “sol de fogo” e “um frio de neve”. O maravilhoso reino da terra. Diz Torga: “O que é preciso, para os ver (estes mundos), é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.”

 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Segredo de Miguel Torga dito por Luís Gaspar

Miguel Torga - Jesús Legido (Lembranças) - Camerata Senza Misura


O Segredo de Miguel Torga



                                                                    Sei um ninho.
                                                                    E o ninho tem um ovo.
                                                                    E o ovo, redondinho,
                                                                    Sei um ninho.
                                                                    E o ninho tem um ovo.
                                                                    E o ovo, redondinho,
                                                                    Tem lá dentro um passarinho
                                                                    Novo.

                                                                    Mas escusam de me atentar:
                                                                    Nem o tiro, nem o ensino.
                                                                    Quero ser um bom menino
                                                                    E guardar

                                                                    Este segredo comigo.
                                                                    E ter depois um amigo
                                                                    Que faça o pino
                                                                    A voar...

                                                                                                   Miguel Torga


A relação que se pode estabelecer entre o conto Jesus de Miguel Torga e este poema do mesmo autor é ao nível do assunto. Assim, no conto e no poema, o assunto é a revelação de uma descoberta – um ninho, feita quer num, quer noutro texto, por um menino – que assume o papel de sujeito poético, no poema – e de personagem principal no conto.
Nos dois textos, a atitude do menino é a de respeito pelo ovo e pelo pintassilgo acabado de nascer.

Jesus de Miguel Torga


 
Comiam todos  o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:
- Sei um ninho!
A mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido no alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
- Sei um ninho!
O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também.
A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha.
A Mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma, O Pai regressou ao caldo.
Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima.
De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.
E o pequeno ia subindo, O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam   até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija.
A subida levou tempo. Foi até preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta.
Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo.
Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré.
Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, que de todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho.
E o menino contava esta maravilha com a sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho.
Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio da sua felicidade, sabia um ninho.
A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho. E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca, o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.
In “Bichos” Miguel Torga, 8ª edição, Gráfica de Coimbra


Uma interpretação possível para Miguel Torga  propor para este conto o título  de Jesus será o facto da criança ser comparada a Jesus por ser completamente inocente “a sua inocência costumada”, capaz do milagre de dar à luz com um simples beijo. A referência ao  “regaço virgem da Mãe” pode ser interpretado como uma alusão à figura da Virgem Maria. Também o facto de o menino viver numa terra de nome Nazaré, sugere a associação de Jesus a Nazaré.

 

Resumo coletivo do conto Ladino de Miguel Torga

Ladino era um pássaro velho e matulão que, desde sempre, fora manhoso e astuto, de tal maneira que era dos poucos do seu tempo que se mantinha vivo. Contrariamente ao que sucedia com os outros, sempre soubera contornar o frio e as armadilhas, pois era muito cauteloso.
Este cuidado com ele próprio, fê-lo sair do ninho materno muito tarde. Os pais sempre insistiram com ele sobre a necessidade de se tornar independente e voar como os seus irmãos. Ladino, no entanto, resistia às exigências dos pais, prolongando a vida boa e sossegada que a vida no ninho materno lhe proporcionava.
Um dia, porém, decidiu voar. Foi uma experiência inesquecível pela multiplicidade de emoções que viveu. Depressa descobriu o prazer de voar e o prazer da boa comida que o acaso lhe proporcionava.
Vive a sua vida de adulto com o mesmo egoísmo e as mesmas cautelas que tivera na infância, para que nada de mal lhe aconteça. Egoísta só pensa em si e no seu bem estar; vê os outros a passar fome mas ele não se incomoda com isso e sabe como se alimentar, mesmo em pleno inverno. Como hipócrita que é, dá lições de moral aos outros e não as aplica a si mesmo. Cínico, faz-se desentendido quando alguma coisa não lhe agrada.    

Reflexão conjunta sobre a representatividade da personagem Ladino

 
À semelhança do conto Miura, a personagem principal é um bicho, neste caso concreto, um pássaro, Ladino, que sente e age como se fosse humano. O seu nome significa aquilo que ele representa e simboliza. Ladino significa astuto, manhoso, sabido. Através da personificação, o autor pretende criticar os que têm as mesmas características desta personagem, cujo nome resume toda a sua maneira de ser. Apesar de ter sido escrito há muitos anos, o conto mantém toda a atualidade pois oportunistas, como o Ladino, é o que não falta na sociedade atual.

O Conto Ladino de Miguel Torga



Ladino de Miguel Torga

Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham andado. O piolho, o frio e o costelo não poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.

Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho?! Uma semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava, olhava, e - é o atiras dali abaixo!... A mãe, coitada, bem o entusiasmava. A ver se o convencia, punha-se a fazer folestrias à volta. E falava na coragem dos irmãos, uns heróis! Bom proveito! Ele é que não queria saber de cantigas. Ninguém lhe podia garantir que as asas o aguentassem. É que, francamente, não se tratava de brincadeira nenhuma!

Uma altura! Até a vista se lhe escurecia... O pai, danado, só argumentava às bicadas, a picá-lo como se pica um boi. Pois sim! Ganhava muito com isso. Não saía, nem por um decreto. E, de olho pisco, ali ficava no quente o dia inteiro, a dormitar. Pobre de quem tinha de lho meter no bico...

Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida. Mas não queiram saber... Quase que foi preciso um pára-quedas.

Mais tarde, quando recordava a cena, ainda se ria. E deliciava-se a descrever as emoções que sentira. Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe-tefe. E a ver as coisas baças, desfocadas. Agoniado de todo! Valera-lhe a santa da mãe, que Deus haja.

- Abre as asas, rapaz, não tenhas medo! Força! De uma vez!

Tinha de ser. Fechou os olhos, alargou os braços, e atirou o corpo, num repelão... Com mil diabos, parecia que o coração lhe saía pelos pés! Ar, então,  viste-o.

Deu às barbatanas, aflito.

- Mãe!

Mas afinal não caía, nem o ar lhe faltava, nem coisíssima nenhuma. Ia descendo como uma pena, graças aos amortecedores. Mais que fosse! No peito, uma frescura fina, gostosa... Não há dúvida: voar era realmente agradável! E que bonito o mundo, em baixo! Tudo a sorrir, claro e acolhedor...
(...)


Leia aqui o conto na íntegra.

O Meu Primeiro Miguel Torga de João Pedro Mésseder

 
"Miguel Torga (1907-1995) foi um admirável escritor da literatura portuguesa, com uma maneira única de contar, de falar de si e de captar, em verso e em prosa, os pequenos e grandes momentos da vida. E a sua foi uma vida invulgar. Neste livro, a escrita de João Pedro Mésseder e as imagens de Inês de Oliveira dão a conhecer o fascínio que Torga sentia pelas palavras, pelo país, pelos bichos, pelas crianças e pelos seus semelhantes. E também pelo ""reino maravilhoso"" onde nasceu."
 
Informação obtida no sítio da editora Leya. Aceda aqui.

Casa Museu Miguel Torga

Miguel Torga_O Meu Portugal Biografia de Miguel Torga

Bichos de Miguel Torga





Poeta telúrico, herdeiro da Terra dura e virgem que lhe emprestou o "ventre", Miguel Torga tem nos seus "Bichos" uma obra de teor distinto. Nesta compilação de contos (14, no total), não existe uma distinção entre o humano e o animal, entre o ser racional e o ser que vive do instinto. Personificados ao máximo na sua "animalidade", os animais assumem almas quase humanas e os seres humanos descobrem-se na sua bestialidade. Torga mostra-nos os sentimentos (medos, alegrias, vontades e desejos) de touros (Miúra), insectos (Cega-Rega), cães (Nero) e gatos (Mago), entre outros. Mas também os homens e mulheres que se desumanizaram (Madalena, Jesus, Senhor Nicolau), que perderam a sua capacidade de pensar, de agir conforme a sua índole, têm espaço para "falar" e inserem-se no mesmo molde. Bichos somos todos, afinal, quando a vida chega a um ponto em que deixa de fazer sentido para a razão que conhecemos.

Se este é um livro para crianças, tecido de pequenas histórias de animais que pensam e falam, há muito, muito mais escondido entre as suas páginas. Não é à toa que um corvo revoltado (Vicente ou Torga, se lermos nas entrelinhas), a voar rumo à liberdade, pode causar tanto frisson em pleno Estado Novo.


in Documentário da RTP Grandes Livros (II)

A Simbologia do Conto Miura de Miguel Torga


À maneira das fábulas tradicionais, os bichos neste conto aparecem humanizados, isto é, pensam e sentem como os homens e são personagens. O narrador com este conto, pretende humanizar os touros e mostrar que sofrem imenso com a decisão que os homens tomam de se divertir à sua custa. Mas não deixa de nos mostrar também que os homens com o seu comportamento violento parecem verdadeiros animais e que estes os podem fazer sofrer muito.

Homens e Bichos


 Neste conto, existem duas forças em confronto: os homens e os animais. Os homens e os animais. Os homens são representados pelo toureiro e os animais pelo touro Miura. Estas duas forças deviam viver em harmonia, como aliás acontecia no tempo em que Miura era o rei da Campina. No entanto, a vontade que o homem sente de se divertir à custa do sofrimento dos animais cria uma desigualdade de forças entre ambos, uma vez que reduz os touros à condição de presa.

Resumo coletivo do conto Miura de Miguel Torga

 

Miura, o rei da campina, foi colocado num curro de uma praça de touros para divertir o público que apreciava touradas. Sentia-se encurralado como um pássaro numa gaiola.

Desiludido e angustiado com a sua sorte, Miura sonha com a lezíria ribatejana, onde fora feliz e vivera em liberdade.

Amedrontado e nervoso, segue os ecos do que se passa na arena com os outros touros, seus antecessores, o Malhado e o Bronco. Os falhanços dos amigos preocupam-no e assustam-no. O público, pelo contrário, rejubila, com a sua pouca sorte.

Miura entra finalmente na arena, sem se aperceber que chegara a sua vez.

Cheio de medo, não sabe muito bem o que o espera. Instigado pelo toureiro dançarino, ataca-o com toda a fúria, mas é sucessivamente enganado pelo pano vermelho que o acompanha. Ambos se agridem de forma violenta e ao primeiro toureiro sucedem-lhe outros dois farsantes dourados que Miura enfrenta com muita energia e com muito sofrimento. O segundo toureiro acaba por sair da arena, moribundo, tal como o primeiro.

 Desiludido com um martírio tão cruel, Miura decide pôr fim àquele suplício, aceitando a oportunidade que o terceiro toureiro lhe oferecia. Foi com esta determinação que entregou o seu pescoço ao alívio do gume.

 

                                                                                                                                             7º C

 

Miura de Miguel Torga


                                                  

          Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação.

Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão!

Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão.

Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais…

Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias…

Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina!

A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas.

A planície!…O descampado infinito, loiro de sol e trigo… O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo… A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro.

Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passes incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco…

Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.

A planície…

Um som fino de corneta.

Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez?

Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco.

Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria.

A planície… O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos…

Assobios.

O Bronco não fazia bem o papel…
(...)
in Bichos de Miguel Torga
Leia aqui o texto na íntegra.